Artigo: O CIRUGIÃO E O MATUTO

O CIRUGIÃO E O MATUTO

Em deslocamento à sua fazenda, num ponto de apoio, o médico cirurgião trocava o carro da viagem por um Jeep, cuja finalidade era vencer as estradas vicinais já que é um veículo mais ágil, de tração nas quatro rodas; um carro para todo o serviço. A expressão “pau para toda obra” se encaixava perfeitamente na necessidade do doutor.

Ia acompanhado de um amigo trocando amenidades quando o veículo caiu num buraco e o motor apagou. Estavam num ermo sem nenhum recurso que pudessem se valer para resolver o problema. Ambos eram leigos em mecânica.

O médico abriu o capô do jeep, olhou atentamente, tentou alguma investida, mas não conseguiu nada, pois era inabilitado nesse particular.

Resignado disse: ─ Se fosse barriga de gente eu o colocaria para funcionar e tudo estaria resolvido.

Ocorre que um matuto que passava ao longe foi chamado pelo acompanhante aos gritos, pedindo socorro.

Então o cirurgião alfinetou: ─ Nós, citadinos e instruídos, não entendemos nada de mecânica, imagine um capiau e, provavelmente, analfabeto. ─ Não vai entender patavina.

Contudo, o moço era conhecido do médico e o cumprimentou reverentemente, perguntando qual era o problema. E foi-lhe explicado o ocorrido. Então, o indivíduo após verificar o motor do veículo, descobriu o defeito.  Perguntou se no veículo havia algum arame ou outro objeto de amarrar, mas nada foi encontrado.

O capiau utilizou-se de um facão, cortou algumas palhas de licurioba (nome popular de uma palmeira muito comum na região nordeste entre os estados da Paraíba e Bahia), Amarrou o acelerador que estava solto e orientou que toda vez que acontecesse o mesmo problema procedesse igualmente.

Surpreso, o doutor se redimiu e sentenciou que não se deve menosprezar a inteligência do homem do campo. Este dera uma lição de que a sapiência nem sempre prevalece em determinadas ocasiões. É importante lembrar que analfabetismo não é sinônimo de falta de inteligência. O rurícola, apesar de analfabeto, era um curioso entendido e usou da perspicácia e experiência para solucionar a questão em apreço.

Diante desse fato, lembro-me de uma passagem que diz o seguinte:

Um advogado palrador, ao atravessar um rio numa canoa, perguntou ao canoeiro se ele havia estudado  e obteve uma resposta negativa: ─ Sou analfabeto de pai e mãe doutor. Vivo desse servicinho e é dele que sustento a família.

O advogado redarguiu que, diante de fato consumado, ele (o canoeiro) havia perdido metade de sua vida.

De repente, surge uma tempestade, quando estavam no meio do rio, e o vento açoitava a canoa colocando os passageiros em perigo. A canoa estava prestes a virar quando o canoeiro perguntou ao advogado se ele sabia nadar, e por não saber, ouviu do transportador: ─ Então, doutor, o senhor perdeu a vida toda.

Resultado: o homem letrado morreu afogado por não saber nadar. Coisas da vida. O destino nem sempre é completo, tem suas nuances.

João Guimarães Rosa disse na posse da ABL o seguinte “… a gente morre é para provar que viveu”.  Contudo é impossível ignorar a sabedoria da vida em todos os seus detalhes.

“O sábio por sua vez, tem consciência que se aprende com tudo e com todos: com o analfabeto e com o homem da ciência; com os jornais e com as novelas. E não faz da inteligência e da cultura o final do caminho. Ele sabe que são apenas degraus de uma escada que nos conduzirá à sabedoria maior: a sabedoria da vida”. (Graziela Domini Peixoto)

Antonio Novais Torres.

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Brumado em 16/10/2010.

Revisado