Artigo: DESILUSÃO

Casou-se jovem, menina moça, em idade de brincar e não de assumir as responsabilidades de uma dona de casa.

Naquela época, as moças se casavam ainda muito cedo, tornando-se mulheres  com a obrigação de cuidar da casa, do marido, dos filhos e todos os afazeres do lar  demais obrigações conjugais inerentes ao casamento, tirando-lhes o sonho de menina.

O marido era um trabalhador braçal da Rede Ferroviária, peão de trecho, como se dizia. Grosseiro por natureza, tratava a mulher como se fosse uma escrava, como a um animal, apenas para satisfazer o seu instinto concupiscente. Estúpido, desconhecia o carinho e as artimanhas do amor.  Geralmente chegava bêbado e, às vezes, dormia com a roupa do corpo, sem nenhuma higienização. Um animal travestido de ser humano.

A cada ano a mulher paria um filho. Sem adjutório, se via obrigada a cuidar da prole e atender às demandas domésticas. Esse costume familiar a envelheceu além da conta, levando o esposo a desdenhar da situação e do desleixo que a envolveu por conta do excesso de trabalho que não lhe permitia se cuidar devidamente para atender às exigências do marido.

Diante dessa situação, o homem passou a se relacionar com uma amante, provocando ciúmes na esposa que passou a se desentender com o marido. Essa crise levou-a a procurar a outra e se engalfinhar na defesa de seus direitos de mulher casada e honrada que não admitia essa situação.

A convivência do casal tornou-se insuportável, se agrediam mutuamente na vista dos filhos. A pressão e a cobrança eram muito grandes e o sujeito tomou a decisão de abandonar o lar e viver com a concubina, para desespero da esposa que, apesar dos desentendimentos, não esperava essa atitude.

Essa situação trouxe consequências de ordem econômica para a mulher casada, porquanto passou a faltar as coisas para a família. A esposa se viu obrigada a humilhar-se e procurar o dito para prover as necessidades imprescindíveis, especialmente, à alimentação das crianças.

Abandonada e sem meios de se sustentar e aos filhos, tresloucadamente, ateou fogo no corpo, uma via-crúcis que durou oito dias. Por não ter médico no lugarejo, colocaram-na em folhas de bananeira untada com vaselina para aliviar o sofrimento. A enferma que teve um final trágico. Segundo comentários, faleceu enlouquecida pelas agressões das queimaduras.

 

O “marido”, por indignidade humana, não compareceu ao velório e ao enterro em total desprezo pela mulher que outrora lhe deu toda a atenção e com ele viveu as vicissitudes da vida e momentos de felicidades e entendimentos. “Quem vê cara não vê coração”.

A crueldade do indivíduo foi motivo de horror e comentários maldosos das pessoas que o julgaram como a um ser irresponsável e elemento nocivo à sociedade pelo ímpeto do temperamento cruel, independentemente da pessoa atingida. A concubina que se cuidasse para não acontecer com ela o mesmo episódio. Em alusão ao acontecido, diziam: “quem faz um cesto faz um cento” em alusão ao episódio.

 

Cada um deve ser julgado pelas suas ações. Cabe uma avaliação pelo comportamento esboçado. Essa conduta levou ao assassínio da mulher com quem conviveu e teve vários filhos. Traiu-a, conspurcando o caráter de uma pessoa honesta, cujo desfecho foi a morte da esposa induzida pelo ciúme, pela indiferença, pelos maus-tratos e a falta de amor, cuja morte traduziu-se na orfandade e abandono dos filhos, culminando com a destruição da família, com consequências inefáveis.

 

Antonio Novais Torres

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Brumado em 17/2/2010.

R/ndc